quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

4 dicas para ser um Engenheiro Florestal de Sucesso

A preocupação com o meio ambiente tem se tornado uma discussão constante ao redor do mundo. Assunto que é pautado também pelas questões florestais, tais como o plantio de eucalipto, produção de celulose, carvão vegetal e biomassa. Acrescentado ainda ao Novo Código Florestal.
O engenheiro florestal se dedica à essa exploração sustentável de recursos provenientes das florestas. Por isso, tantos órgãos governamentais como empresas privadas sinalizam o aumento de empregos para esses engenheiros. A área de atuação é extensa e varia entre a Ecologia Aplicada, a Indústria de Celulose e Papel, Madeireira, Educação, Fiscalização, Manejo Florestal, Tecnologia de Produtos Florestais e Topografia e Geoprocessamento.
engenheiro florestal 1
Aumento de empregos, de oportunidades e mais responsabilidades. O resultado é um mercado profissional agitado que requer um grau de excelência ainda mais alto. Listamos 4 dicas para o engenheiro florestal ser um profissional de sucesso. Leia:
  1. Especialização. Para se destacar dos concorrentes o engenheiro florestal deve buscar aperfeiçoamento contínuo. Ele pode vir por meio de cursos de pós-graduação ou especialização, além de idiomas, congressos e palestras. Além de melhorar o currículo, a especialização contínua mostra que o profissional possui atitude de buscar sempre o aperfeiçoamento e não fica estagnado.
  2. Visão Inovadora. Aqueles profissionais com mentalidade de inovação saem na frente e são os preferidos do mercado. Eles apresentam boas ideias e estão dispostos a se arriscar e apostar em novos processos.
  3. Experiências. Como essa é uma área muito ampla, os conhecimentos são muito diversos e a gama de tecnologias disponíveis é enorme. É preciso explorar esta diversidade para se tornar um profissional mais versátil e completo.
  4. Profissional do Futuro. Cada profissional tem seus pontos fortes e fracos. O que separa os grandes profissionais do resto é a capacidade de perceber onde estão as suas deficiências e tomar ações para melhorar.

Brasil terá que manter políticas públicas sólidas nas áreas de desmatamento e de produção de etanol se quiser cumprir as promessas feitas na COP21

Artigo do Presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, ACIESP, Marcos Buckeridge, para o Jornal da Ciência
O mundo, ou pelo menos seus governos, levou décadas para aceitar que as mudanças climáticas globais são um fato e que seus efeitos colocam em risco a todos nós. Como fazem as pessoas no âmbito individual, quando têm que mudar hábitos arraigados, não o fazem até que sejam realmente forçadas a isto. Por isto foi só no dia 12 de dezembro de 2015 que um acordo coletivo foi pela primeira vez assinado no sentido de tentar mudar as coisas no planeta.
O acordo firmado na COP21 é sem dúvida um grande passo no sentido de determos os efeitos mais drásticos do clima. Foi o melhor que conseguimos até agora. Mas é preciso lembrar que uma coisa é assinar um acordo, outra é cumpri-lo. A tendência é sempre colocar a dimensão individual em primeiro lugar, principalmente quando uma crise neste nível se estabelece. É como aquele regime que sempre começa na segunda-feira. Nós firmamos um acordo conosco de que vamos mudar, mas quando chega a hora…..!! Aí, as dificuldades começam e raramente conseguimos implementar as medidas que decidimos.
A ideia de que cada país enviasse com antecedência as suas metas para contribuir para evitar ultrapassarmos os 2C até 2050 foi muito boa. Em que pese o fato de que a ONU terá provavelmente o papel de fazer valer o acordo para todos, uma tarefa extremamente difícil, precisaremos olhar tudo isto com muito cuidado, pois as emissões para os próximos 45 anos já estão consolidadas se olharmos os planos de desenvolvimento de hoje. Só mudanças drásticas de planos mudarão alguma coisa.
Portanto, os planos de desenvolvimento terão que ser reformulados por todos os países para que o acordo seja integralmente cumprido. Isto tem condições de ser feito? Será que as próximas gestões irão respeitar o que os governos de hoje assinaram? As respostas para estas perguntas só se tornarão visíveis depois que o tempo passar. Mas é improvável que o acordo seja cumprido integralmente, pois os governos que estão no poder agora podem não estar mais nestas posições em pouco tempo.
No Brasil, o cumprimento das metas fará muito bem ao País.  Saliento dois pontos: a eliminação do desmatamento e a produção de energia renovável, notadamente o bioetanol.
Eliminar o desmatamento nos ajudará na manutenção dos biomas e permitirá avançar em estratégias de preservação, conservação e uso sustentável da biodiversidade. Se levarmos a sério esta meta, abriremos caminho para uma nova economia, mais sustentável e mais justa. Ao mesmo tempo, o Brasil poderá aproveitar melhor as riquezas que a biodiversidade oferece, desde a manutenção do clima, até a saúde dos cidadãos e os benefícios das biotecnologias do futuro. Aquelas que irão ser aplicadas a partir de conhecimentos sobre organismos da fauna, flora e microbiota nativas.
Nas energias renováveis, o Brasil também se beneficiaria muito. Ao mesmo tempo em que ajuda a baixar as emissões por combustíveis fósseis, o Brasil se encontra na fronteira da ciência e da tecnologia dos biocombustíveis. Temos uma nova oportunidade de continuar a consolidação do nosso país como líder mundial neste setor, pois provavelmente todos os países que respeitarem o acordo estarão interessados na ciência e tecnologia que desenvolvemos aqui durante décadas.
A questão da mudança de hábito no Brasil é fundamental. O Brasil se tornou um país focado em energia fóssil a partir de 2010, relegando a segundo plano projetos como o de usar o etanol como principal combustível para o transporte.  Será que depois de firmar o acordo da COP21, o Brasil mudará de direção?  Isto significaria ir pelo caminho que todos consideram certo hoje, que é o caminho da energia renovável e do mínimo impacto ambiental.
O argumento que o dinheiro obtido com petróleo irá tirar pessoas da pobreza é falacioso, pois no longo prazo, serão justamente estas pessoas, os mais pobres, que serão os primeiros afetados pelas mudanças no clima geradas pela emissão do petróleo. Portanto, as estratégias de elevar o uso de renováveis e ao mesmo tempo reequilibrar as contas ambientais, serão aquelas que irão ter este papel. O Brasil tem a oportunidade de assumir um papel de liderança nestas duas áreas. E tem cacife para isto. Temos redes de cientistas de alto nível no Brasil trabalhando nestas áreas. O que precisamos agora é aplicar o que já desenvolvemos e dar vazão para que mais conhecimento seja adquirido.
É bem simples, se seguirmos com boas estratégias para realizar o que nós mesmos prometemos no acordo de Paris, já será algo extraordinário. Nosso país pode sim mostrar ao mundo que é sério e engajado nas questões de importância planetária. Basta ter consistência e persistência nas políticas públicas.
Esse artigo expressa apenas a

“Se entendermos a floresta não será preciso derrubar um galho de árvore”, segundo Niro Higuchi

    Em entrevista à Agência Fapeam, o pesquisador Niro Higuchi apontou as causas do desmatamento na Amazônia e soluções para o problema
Pesquisador pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) com trajetória científica reconhecida em todo o mundo, Niro Higuchi, ressaltou a importância da floresta amazônica para o desenvolvimento econômico e social do planeta.
Membro titular da Academia Nacional de Engenharia (ANE) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o pesquisador destacou a importância da formação de recursos humanos altamente qualificados que sejam capazes de entender as interações e associações que ocorrem com a floresta amazônica. Para ele, não é possível tentar utilizar a floresta amazônica sem conhecimento de alto nível.
Confira a entrevista:
Agência Fapeam (AF): Em um momento no qual os líderes de todos os países estiveram reunidos para discutir a preservação ambiental e muito se discute, principalmente, sobre o papel da Amazônia, como temos contribuído em um cenário mundial com a preservação do meio ambiente?
Niro Higuchi: A floresta amazônica é a maior floresta contínua do mundo e está relativamente preservada. Diria, hoje, que a nossa estimativa não alcança 15% do desmatamento da Amazônia. Então, temos 85% de uma área gigantesca preservada, ou seja, 450 milhões de hectares. Só este fato ganha uma importância enorme, pois com esse bioma preservado, há ainda muita possibilidade de entender como eles funcionam em condições naturais e como poderão responder quando alterado ou modificado, ou, até mesmo, quando impactado por outro tipo de uso da terra. Portanto, o papel da Amazônia no ambiente mundial é extremamente relevante apesar de que ainda é pouco conhecido. Mas, diante do desconhecido é melhor seguir a estratégia de preservar o bioma.
A.F: Relaciona-se a preservação da Amazônia como uma maneira de brecar as mudanças climáticas. Isto é possível ou esse processo de mudanças no clima alcançou um estágio irreversível?
Niro Higuchi: Vamos falar no singular. A mudança climática foi identificada com um aumento de temperatura no planeta Terra no período de 1880 até 2004, e depois eles estenderam esse prazo até 2012, então foi constatado um aumento de temperatura, um aquecimento global, isto é, uma mudança climática. Mas, tudo isso foi causado pela tecnologia. O que eu quero dizer é que se você colocar a floresta amazônica e compará-la com todos os outros tipos de atividades, todas as outras atividades do ser humano envolvem tecnologia.
Mais de 80% das emissões e do estoque de gás de efeito estufa na atmosfera foram causados por causa do desenvolvimento tecnológico. Então, o desmatamento, seja da Amazônia ou de qualquer floresta, contribui com menos de 20% nesses gases de efeito estufa e esses gases são o que realmente causam todas essas ‘dores de cabeça’ para o planeta Terra.
Olhando apenas por esse aspecto, se resolver o problema do desmatamento da Amazônia, resolvo apenas 20% do problema, isso se todo o desmatamento fosse na Amazônia, o que não é. O que nós temos de resolver é todo 100% e 80% dependem da tecnologia. Para ser muito objetivo, a tecnologia criou o problema que levou ao aquecimento global e não tem alternativa, é a tecnologia que tem de achar uma solução para resolver essa questão de mudança climática.
A.F: E qual seria essa alternativa?
Niro Higuchi: O clássico do clássico era você desmatar e substituir a floresta por outro uso de terra, como por exemplo, a agropecuária, a produção de alimentos entre outros, porém não é o que ocorre. Temos uma floresta que foi desenvolvida há milhares de anos e para essa floresta ter se desenvolvido, ela dependeu de muitas interações com o solo, com o clima, com todos os seres vivos de todos os ecossistemas. Então, quando você tem todo esse processo evolutivo, muito conhecimento é agregado a isso.
Teríamos que tentar entender como, por exemplo, essas plantas se desenvolvem e aproveitar delas esse banco de informações. Se a gente conseguisse utilizar a floresta, utilizando apenas o banco de informações, não seria preciso derrubar um galho de árvore. Mas, se a gente for para um lado mais prático, o que se fala muito é da biodiversidade e ela não demanda destruição de floresta. Você pode utilizar a biodiversidade e agregar muito valor a essa floresta, mantendo todos os serviços ambientais da mesma.
Nós temos condições, só depende do conhecimento, da geração de tecnologia para aproveitar a floresta apenas das informações que estas desenvolveram ao longo do seu tempo.
A.F: Como a pesquisa científica pode auxiliar em todo este processo de conservação ambiental, desenvolvimento e controle do desmatamento?
Niro Higuchi: A floresta Amazônica é uma floresta extremamente complexa, heterogênea e igualmente frágil e estamos diante desse tipo de informação. Não é possível tentar utilizar esse tipo de floresta sem conhecimento, conhecimento de alto nível.
Tudo tem que começar pela pesquisa básica e temos de entender, realmente, como essa floresta e todas as suas interações e associações funcionam em condições naturais. Depois de entendermos isso, nós temos condições de prever ou desenvolver alguma estratégia de mitigação dos efeitos dessas intervenções. Isso demanda muito estudo científico e, principalmente, conhecimento básico.
A.F: Em meados de 2012, o senhor declarou que a floresta Amazônica sequestrava da atmosfera cerca de uma tonelada de carbono por hectare ao ano. Esse valor aumentou? Conseguimos mensurar o impacto do desmatamento neste processo?
Niro Higuchi: Esse estudo é muito localizado, é um estudo baseado apenas nas informações que nós coletamos na nossa estação experimental em poucas parcelas, e é um estudo de certo prazo, são quase trinta anos de observações.
Então, ao longo desse tempo, nesse pequeno espaço de floresta, nós observamos que essa floresta, em condições naturais, tem tido capacidade de sequestrar uma tonelada de carbono da por hectare/ano. A pergunta que se faz é se eu posso extrapolar isso para toda a Amazônia e se isso vai acontecer em toda a região. Se isso acontecer em toda a Amazônia, a floresta, só em termos de sequestro de carbono, ou seja, de limpeza da atmosfera, tem um papel extraordinário, pois essa capacidade de sequestro tem condições de neutralizar todo o carbono emitido pelo Brasil.
A.F: Temos um Código Florestal vigente que, mesmo necessitando ser readequado a determinadas realidades regionais, trouxe um avanço. Na sua avaliação, qual política adequada para conservação da floresta Amazônica?
Niro Higuchi: Quando falamos em quadro florestal, temos de lembrar que o primeiro quadro florestal, de fato, foi aprovado em 1932, depois em 1965 e, finalmente, em 2012. Então, na realidade, nós temos três Códigos Florestais que, se olharmos historicamente, de 1932 a Mata Atlântica praticamente desapareceu, o cerrado foi muito impactado com o uso da terra, e outros biomas no Brasil também sofreram grandes impactos desde 1932.
Então, o Código Florestal não resolveu o problema e quando comparamos os três Códigos, pouca coisa mudou e todos eles tinham como premissa básica, conter o desmatamento, o que não funcionou.
No ponto de vista relativo, nós temos um desmatamento de apenas 15%, mas no ponto de vista absoluto, o desmatamento na Amazônia é muito grande, principalmente se você olhar o retorno (social, rural ou financeiro) que esse desmatamento foi dado para a região Amazônica. Eu acredito que a grande novidade do novo Código Florestal é a introdução do cadastro ambiental rural, que irá trazer um controle melhor da terra, da propriedade. Se nós conseguirmos implementá-lo, nós vamos ter uma grande arma contra o desmatamento de fato. Mas a gente nunca pode ter certeza que a lei, realmente, será cumprida. Então nós temos de esperar, pois nós temos uma lei muito interessante, bonita, bem cuidada, mas há poucos investimentos de pessoal, de equipamento, pra licenciar e fiscalizar.
A.F: Como o senhor acredita que a floresta Amazônica estará daqui a dez anos?
Niro Higuchi: Se nós considerarmos apenas a ação do homem, com a diminuição das taxas de desmatamento nos últimos dez anos, então diria que a Amazônia vai ter, do ponto de vista de paisagem, uma modificação pequena. No entanto, o que nós temos observado é que ações naturais, consequência ou não da mudança climática, tem ocasionado na paisagem amazônica uma mudança muito maior e mais intensa que a própria ação humana, principalmente por causa das secas e das tempestades.
Portanto, a paisagem irá mudar muito pouco, dependendo apenas a ação antrópica que, por incrível que pareça, é muito mais previsível do que a ação natural que a gente perdeu completamente o controle.
Agência Fapeam

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PA: operação investiga grandes empresas exportadoras de madeira por desmatamento ilegal e fraude

madeira de desmatamento ilegal

Grandes empresas exportadoras de madeira atuando no Pará são suspeitas de usar créditos florestais para “esquentar” madeira ilegal
Foi deflagrada nesta sexta-feira, 4 de dezembro, uma operação do Ministério Público Federal, Polícia Federal, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e Justiça Federal que investiga um esquema de desmatamento ilegal e fraude em sistemas florestais no qual estão envolvidas algumas das maiores empresas exportadoras de madeira do Pará. A operação envolve buscas e apreensões em 41 endereços ligados a cinco empresas no Pará, São Paulo e Curitiba. Duas pessoas tiveram prisões preventivas decretadas, outras 16 ficarão em prisão temporária e 10 serão conduzidas coercitivamente para prestar esclarecimentos. Também houve busca e apreensão na sede do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), porque há suspeita da participação de uma servidora nas fraudes.
A operação faz parte de uma investigação sobre esquema que faz a chamada lavagem de madeira. Análises de dados dos sistemas florestais e escutas telefônicas forneceram provas importantes para a equipe de investigação. Nesse tipo de esquema, a madeira retirada em desmatamentos ilegais na Amazônia entra nos sistemas de controle da comercialização de produtos florestais por meio de fraude em planos de manejo aprovados pelo poder público, geralmente em nome de laranjas. Comprada por grandes empresas exportadoras, a madeira derrubada ilegalmente é vendida com aparência de legalidade para compradores no exterior.
Cada plano de manejo aprovado pode comercializar quantidades determinadas de madeira, os chamados créditos florestais. Nos planos usados para esquentar madeira ilegal, os créditos são usados apenas para justificar a compra e a venda de madeira ilegal. No caso da operação Tabebuia (referência ao nome científico do ipê, tabebuia serratifolia) o esquema começou a ser desvendado quando o Ibama identificou uma grande concentração de ipê e maçaranduba, duas madeiras nobres, em quantidade acima de 50% em um plano de manejo aprovado. A concentração contraria os dados científicos sobre a dispersão dessas espécies na floresta amazônica.
A partir dessa discrepância, descobriu-se que 81% da madeira retirada do plano de manejo fraudulento tinha sido destinada à Jari Florestal S.A, uma das maiores empresas exportadoras de madeira do país. No total, a Jari, segundo os registros no sistema de controle, teria recebido dois carregamentos de madeira somando quase 9 mil metros cúbicos de um plano de manejo localizado há mais de 500 km de distância da sede da empresa. Para se ter uma ideia, essa quantidade de madeira teria que ser transportada por uma frota de mais de 220 caminhões.
Apesar do volume e da distância, a investigação mostrou que cada carregamento demorou, entre a entrada no sistema de controle e o registro da chegada, apenas dois dias para alcançar o destino. Como não há estrada entre Juruti, onde fica o plano de manejo fraudulento, e Almeirim, sede da Jari Florestal, a madeira teria que ter percorrido a distância em caminhões e depois balsas, o que seria impossível em dois dias. Com o avanço das investigações, a Polícia Federal descobriu que o mesmo tipo de operação com evidência de fraude ocorreu envolvendo a Jari e outros planos de manejo.
Só de um dos planos de manejo, foram movimentados mais de R$ 28 milhões em madeira ilegal entre dezembro de 2014 e fevereiro de 2015, devido ao alto valor comercial do ipê: um metro cúbico de madeira serrada pode alcançar o preço de R$ 3 mil dólares no mercado internacional. O ipê é considerado uma das madeiras mais resistentes, usada em deques e revestimentos para áreas externas e ate parques públicos em grandes cidades dos Estados Unidos.
A Jari Florestal também comprou créditos para comercializar ipê de outras sete empresas próximas da capital paraense, Belém. Em várias dessas compras, o sistema registrou tempos curtos demais para a chegada da madeira, sendo que distância entre Belém e Almeirim é de mais de 800 km. Em uma das movimentações, a madeira enviada pela Pampa Exportações (outra empresa investigada) atravessou o Pará em apenas 10 minutos.
Ao examinar os dados das transferências de madeira feitas para a Jari Celulose, a PF encontrou a localização, através do IP (Internet Protocol) dos computadores de onde foram feitos os registros nos sistemas florestais, todos com a senha do suposto dono do plano de manejo, Jovino Vilhena. As transações milionárias de madeira entre Almeirim e Juruti na verdade tinham sido feitas de um computador em uma empresa de informática na periferia de Belém.
Vilhena foi um dos alvos da operação hoje. Ele atua como despachante para várias empresas madeireiras e, segundo a investigação, não tem recursos financeiros para ser proprietário de terras e titular de um plano de manejo. Os mesmos IPs foram utilizados em várias outras operações suspeitas envolvendo as cinco empresas investigadas na operação Tabebuia: Jari Florestal, Pampa Exportações, KM Comércio e Exportação de Madeiras, Legno Trade Comércio, Importação e Exportação de Madeira e Irmãos Alvarenga Indústria e Comércio de Madeira. Todas são alvo de buscas e apreensões.
Informações do Ministério Público Federal no Pará, in EcoDebate, 08/12/2015

Pantanal pode ser drasticamente afetado por mudanças climáticas

Bioma abriga mais de mil espécies de animais e duas mil de plantas.Efeito das mudanças, estiagem prolongada pode afetar ciclo das águas.
O Pantanal é uma das maiores áreas úmidas contínuas do planeta, abrangendo parte dos territórios do Brasil, Paraguai e Bolívia. No território brasileiro, ocupa 150,3 mil km² em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. Apesar de ser o menor bioma em extensão territorial no país, é um dos mais exuberantes no que se refere a fauna e flora e um dos mais preservados. Mantém, segundo o Ministério do Meio Ambiente, 86,77% de sua cobertura vegetal nativa.


O bioma, conforme o ministério, tem mais de mil espécies de animais catalogadas, sendo 263 de peixes, 41 de anfíbios, 113 de répteis, 463 de aves e 132 de mamíferos, além de quase duas mil espécies de plantas identificadas e classificadas, algumas, inclusive, com grande potencial medicinal. Diante da riqueza dessa biodiversidade, o Pantanal foi declarado Patrimônio Nacional pela Constituição Federal e Patrimônio da Humanidade e Reserva da Biosfera pela Organização das Nações Unidas (ONU).


Este bioma, modelo de preservação ambiental e sustentabilidade, já está sendo ameaçado pelas mudanças climáticas que estão ocorrendo em escala global. O alerta é de alguns especialistas ouvidos pelo G1. Eles apontam que alterações estão ocorrendo e que, se não forem tomadas medidas para controlá-las, o Pantanal corre o risco de colapso em algumas décadas.


Um dos que pedem a adoção imediata de ações para mitigar os efeitos das mudanças climáticas no bioma é o engenheiro florestal e coordenador do programa Cerrado-Pantanal da organização não-governamental WWF Brasil, Júlio César Sampaio. A entidade tem o bioma como uma das 35 áreas prioritárias no mundo e desenvolve, há cerca de dez anos na região, ações voltadas para a conservação ambiental, desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis, proteção da biodiversidade e educação para a conscientização ambiental.


Sampaio explicou que o Pantanal como um bioma úmido depende fundamentalmente do ciclo hidrológico de cheia e seca para sua manutenção e que uma das principais ocorrências do processo de mudanças climáticas, o de períodos de estiagem mais longos e extremos, já é sentido em algumas regiões pantaneiras. "Em alguns municípios do Pantanal, a população já está percebendo que a seca está ficando mais longa e mais severa", comenta.


Ele aponta que a persistência desse "evento extremo" do processo de mudança climática na região pode afetar "drasticamente" todo oecossistema pantaneiro, influenciando no ciclo de inundações e empurrando várias espécies de peixes e animais para áreas cada vez menores, "estrangulando" o bioma. "Esse processo já está em curso. É perceptível em várias cidades da região. Se não forem adotadas medidas de mitigação, de preservação das nascentes, principalmente na região do Planalto, onde elas estão pressionadas pela agricultura e pecuária, isso afetará a dinâmica hidrológica do Pantanal", alerta.


Sampaio diz que esse processo que já está transcorrendo ainda pode ser acelerado em razão de uma outra situação, está de ação ainda mais direta do homem, a da instalação de pequenas centrais hidrelétricas, as chamadas PCHs, ao longo da bacia pantaneira. "Se o quadro permanecer como está, se não forem adotadas políticas públicas para assegurar a preservação e recuperar a bacia, em 20 ou 30 anos o Pantanal poderá estar estrangulado", afirma.


Outro especialista que aponta que as mudanças climáticas podem ter grande impacto no Pantanal é o professor do curso de geografia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em Corumbá e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Aguinaldo Silva.


Desde 2000, ele faz parte de um grupo de pesquisa Sistemas Fluviais e Meio Ambiente que estuda as mudanças ambientais no Pantanal. Essa equipe conta com integrantes da UFMS, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de Kentucky (EUA) e da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), e ainda com apoio de diversas instituições de fomento, como o próprio CNPq, a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect) e ainda a National Science Foundation (NSF) e a National Geographic Committee for Research and Exploration, ambas dos Estados Unidos.


"Com certeza, o sistema climático global pode ter influência sobre o Pantanal e a vida pantaneira. Mudanças nas águas dos oceanos tropicais, especialmente o Pacífico, podem ter grandes efeitos sobre a precipitação no interior continental, e, portanto, sobre a ocorrência e duração das inundações", explica.


Silva ressalta que essa alteração climática pode provocar mudanças significativas na região pantaneira. "Podemos dizer com alguma confiança que o clima global está mudando, e as temperaturas estão se tornando mais quentes. A maioria dos modelos climáticos concordam com esse cenário. Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal, alterando o ciclo de inundação anual do rio Paraguai. Poderão ocorrer longos períodos de seca, o que influenciará negativamente a flora e a fauna. Esperamos que a nossa pesquisa possa ajudar a esclarecer quais os fatores principais devem ser levados em consideração para minimizar os efeitos perversos de possíveis períodos futuros de secas mais pronunciadas", comenta.


Assim como o coordenador do programa Cerrado-Pantanal da WWF Brasil, o pesquisador da UFMS aponta a recuperação das nascentes da bacia pantaneira, na região do Planalto, como uma medida que poderia ser adotada para, pelo menos, diminuir o ritmo do impacto dasmudanças climáticas na região.


"As maiores ameaças ao Pantanal estão localizadas nas áreas do Planalto como, por exemplo, o uso e ocupação do solo, o que feito sem planejamento pode aumentar o aporte de sedimentos para dentro do sistema o que poderá provocar o assoreamento de alguns rios, impactando diretamente a navegação e o turismo de pesca. Outra ameaça são as hidrelétricas, que podem interferir no regime hidrológico dos rios e estes, tendem a ajustar suas dinâmicas fluviais às intervenções. Impedir o desenvolvimento de atividades econômicas no entorno do Pantanal é muito difícil. Mas é necessário buscar entendimento entre os diversos setores para que se possam amenizar os impactos na região. Uma das alternativas para diminuir as mudanças ocasionadas por ações antrópicas seria recuperar as áreas degradadas no Planalto e introduzir técnicas apropriadas de ocupação e manejo do solo, principalmente nas cabeceiras: Isso resultaria na diminuição da entrada de sedimentos e, ao longo do tempo, os próprios rios buscariam um novo equilíbrio", analisa.

Falta de dados sobre a situação


Em contrapartida, a chefe-geral da Embrapa Pantanal, Emiko Resende, diz que ainda não é possível apontar que o Pantanal já está sentindo os reflexos das mudanças climáticas globais. "Ainda não existem dados suficientes para responder a esta questão para o Pantanal. Entretanto, os dois últimos anos tiveram as cheias atrasadas. Geralmente, ocorre a enchente até final de maio e em junho, já se inicia a vazante, mas nestes dois últimos anos, a cheia se estendeu até junho e somente em julho, o rio Paraguai começou a secar, ao menos na região de Corumbá", comenta.


Apesar desse atraso nas cheias nos últimos anos, Emiko reafirma que isso não pode ser atribuído ainda às alterações climáticas. "Como o sistema sofre de pulsos de inundação variáveis, ainda não é possível atribuí-los a mudanças climáticas. Entretanto, vale lembrar que o nível do rio Paraguai tem oscilado de forma variada ao longo do século XX e início deste século. As leituras da altura do rio Paraguai, na régua de Ladário, foram iniciadas pela Marinha do Brasil em 1900 e observou-se que, no período de 1960 a 1974, houve um período de seca de 14 anos, em que a altura máxima do rio Paraguai foi inferior às alturas mínimas das décadas seguintes. No período de 1975 a 2008, o rio Paraguai ultrapassou os 5 metros todos os anos, tendo havido cheias excepcionais que chegaram perto dos seis metros. A partir de 2008, as cheias voltaram a oscilar de ano para ano, entre cheias grandes e pequenas, como no período de 1900 a 1964. Dessa forma, ainda torna-se muito prematuro e difícil fazer qualquer previsão", concluiu.


Mas se ainda não existem, conforme a Embrapa Pantanal, dados que atestem os efeitos das mudanças climáticas no Pantanal. A instituição trabalha em um projeto, o Pecus Pantanal, que está estudando os efeitos que pecuária causa no aquecimento global.


"O projeto faz parte da Rede Pecus, que está em todos os biomas do Brasil, respeitando os sistemas produtivos de cada um. No Pantanal, estamos medindo as emissões de metano entérico (produzidos pela fermentação entérica dos bovinos, que é um processo natural da digestão dos ruminantes) e as emissões de metano que vêm do solo, das áreas alagáveis. Essa emissão do solo é um processo que também é natural, comum em regiões de áreas alagáveis. O gás é produzido em solos encharcados, com pouco oxigênio. Nós investigamos, ainda, se esses solos absorvem o metano quando secam. Com essas investigações pretendemos, em primeiro lugar, produzir dados reais, que sejam medidos e não estimados a partir de parâmetros definidos internacionalmente, longe da nossa realidade. Assim, queremos analisar a contribuição efetiva da pecuária no Pantanal para a emissão de gases do efeito estufa e, consequentemente, para o aquecimento global. Também queremos verificar se existem ações que podem mitigar essa emissão ou compensá-la", detalha a pesquisadora Ana Marozzi Fernandes.


Ela aponta que o projeto "Pecus Pantanal" está completando quatro anos em 2015 e ainda tem mais um de duração para a captação de dados, sendo os primeiros resultados divulgados entre 2016 e 2017.

Tudo normal para o produtor
Para o presidente do Sindicato Rural de Corumbá, Luciano Leite, a região ainda não foi afetada pelas mudanças climáticas. "Aqui não temos sentido a mudança climática não. O ritmo de cheia e seca permanece o mesmo. É lógico que temos, conforme pesquisas da própria Embrapa Pantanal, ciclos de cheia mais alta, que duram de 15 a 20 anos, e outros de cheia mais baixa, que durante o mesmo período, mas tudo dentro da normalidade".

A formação do Pantanal
Segundo o professor Aguinaldo Silva, o Pantanal é uma bacia sedimentar quaternária localizada na bacia do Alto Paraguai.  Na paisagem existem muitas "feições geomorfológicas", herdadas de diferentes tipos de climas, que tem pelo menos cerca de 200.000, no período Pleistoceno. Muitas dessas "feições" ainda são visíveis na morfologia do bioma. Ele aponta que a paisagem tem se modificado desde o fim do Pleistoceno, em uma adaptação a um ambiente mais úmido e quente dominante no período Holoceno (a partir de 11.000 anos atrás).


"A paisagem do Pantanal como conhecemos hoje é uma vasta planície com baixo gradiente topográfico, tendo o rio Paraguai como tronco do sistema. O escoamento superficial das águas é muito lento e por isso muitas áreas são inundadas nos meses de verão e outono. Estudos realizados nos sedimentos da lagoa Gaiva indicam que no início do período Holoceno o clima era mais seco do que no presente, e é provável que uma seca importante influenciou as zonas úmidas entre 5 mil e 2 mil anos antes do presente.  Há cerca de 2.000 anos houve novamente aumento da umidade na região.  Os estudos que estão sendo desenvolvidos atualmente na área da lagoa Uberaba podem fornecer evidências adicionais para alterações na hidrologia e as ocorrências dos eventos em questão. Será interessante ver se a lagoa Uberaba foi sensível às alterações climáticas durante o Holoceno. As amostras estão em análise e a partir do resultados obtidos pelo  método de datação pelo método docarbono 14,  poderemos precisar melhor quando a  precipitação aumentou e o Pantanal passou a ter as áreas inundáveis que conhecemos hoje", explica o pesquisador.


Aguinaldo Silva diz que em razão da extensão do bioma ainda será necessário estudar muitas áreas para que se possa ter conhecimento da evolução do Pantanal como um todo. "Isto certamente dependerá de muitas pesquisas e muito tempo ainda", concluiu.

Fonte:MMA

domingo, 13 de dezembro de 2015

Árvore em pé deve ser valorizada

 redução do impacto ao clima devido ao uso da terra, principalmente pela agropecuária e produção florestal, depende de um fator econômico básico: a valorização monetária das árvores mantidas em pé ou plantadas para recompor o que foi destruído. Além do equilíbrio climático, está em jogo o fornecimento de alimento, madeira, fibra, biomassa para energia, químicos naturais e outros insumos na escala necessária à população global projetada para as próximas décadas. No rastro das oportunidades de mercado que surgem a partir da urgência na mitigação de gases do efeito estufa, começa uma corrida - no mundo e no Brasil - para se definir a conta da restauração florestal, quem a pagará, como e com qual retorno financeiro.
A recuperação da floresta em 12 milhões de hectares para diversos usos até 2030 está embutida no compromisso brasileiro de reduzir asemissões de carbono em 37% em 2025 com base nos índices de 2005. Ao se considerar os atuais valores médios do plantio de árvores nativas em mosaicos intercalados com eucalipto (R$ 10 mil/ha), o custo da empreitada poderia atingir algo em torno de R$ 120 bilhões, superior a todos os investimentos realizados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC, de R$ 114,3 bilhões) entre janeiro e junho deste ano, segundo balanço do Ministério do Planejamento.
"O custo é monstruoso e o dinheiro não virá do bolso dos proprietários rurais, nem de linhas de crédito do governo, mas do mercado financeiro, se a atividade gerar retorno para o capital", afirma o empresário Roberto Waack, liderança da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. A organização iniciou estudo econômico inédito para saber em que condições o recobrimento do país com árvores pode se tornar um investimento atrativo. Além da questão climática, a demanda do Código Florestal soma entre 10 milhões e 20 milhões de hectares de passivos de reserva legal para recuperação nas propriedades rurais, "o que acontecerá se for bom negócio".
Fazer a conta com maior precisão depende da implementação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), previsto no Código, e da aprovação do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) - marco legal que definirá como as reservas legais poderão ser exploradas economicamente, hoje no Ministério do Meio Ambiente para ajustes após consulta pública entre janeiro e julho.
Conduzido pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade, da Fundação Getúlio Vargas, e Instituto Escolhas, o estudo contabiliza as oportunidades com o manejo florestal. Para o suprimento da demanda brasileira, estima-se a necessidade de se multiplicar por dez a atual área de produção de madeira rastreada, até 2030. Hoje, apenas 10% a 20% das toras extraídas na Amazônia têm origem legal e sustentável, segundo dados da Coalizão. Essa pequena parcela compete em desigualdade com a produção ilegal, que tem custos 40% inferiores porque não adota práticas para redução de impactos e não paga impostos. Os pesquisadores pretendem medir quanto a legalização de 100% da madeira refletirá no desenvolvimento econômico e na quantidade de emissões de carbono evitadas devido à menor degradação florestal.
"O caminho é criar um programa nacional de fomento à pesquisa e desenvolvimento de silvicultura de espécies nativas para o Brasil repetir nesse campo o sucesso mundial obtido com a produtividade do eucalipto", sugere Waack. O objetivo é tornar o modelo rentável e autofinanciável, a partir de uma escala de restauração variando entre 10 milhões e 20 milhões de hectares, ao custo atual de R$ 50 bilhões a R$ 100 bilhões, que precisaria ser reduzido ou compensado pela geração de receita. O montante máximo necessário para o conserto dos estragos no Brasil equivale a 20% da produção florestal mundial, de US$ 150 bilhões ao ano, considerando o valor das árvores e não dos seus subprodutos industrializados, conforme dados de 2014 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).
"O custo da degradação pode ser muito maior que o da restauração e é preciso mudar a crença de que criar reservas florestais significa perder área de produção", alerta Miguel Calmon, especialista da área na International Union for Conservation of Nature (IUCN). Para ele, "é necessário analisar modelos e criar planos de negócio para testar o apetite dos investidores". Uma saída é compensar passivos no formato de condomínios florestais, associados a diferentes setores produtivos e a fundos de investimento: "A estratégia envolve inteligência territorial", sugere o consultor Arnaldo Carneiro, diretor da Agroicone.
Na busca por viabilidade, projetos acadêmicos chegam a novos resultados: "Na Mata Atlântica e Amazônia, a redução de custo atingiu 50%, em média, com uma combinação de espécies nativas e adubação verde", revela Ricardo Rodrigues, pesquisador da Universidade de São Paulo, em Piracicaba (SP). "O desafio agora é entender o valor de todos os serviços ecossistêmicos da restauração - como o controle climático - para que sejam pagos".
"Bancos públicos e privados começam a se interessar pela nova agenda, sinal de que o cenário poderá de fato mudar de escala", analisa Rubens Benini, supervisor de restauração da The Nature Conservancy (TNC). Rachel Biderman, diretora do World Resources Institute (WRI) no Brasil, reforça: "Precisamos criar no país uma cultura de restauração, inclusive para fins de segurança hídrica".
O estudo internacional "New Climate Economy", liderado pela organização, contabilizou a existência de investimentos de US$ 50 bilhões por ano em restauração florestal, metade nos países em desenvolvimento - bem abaixo da necessidade global, estimada em US$ 200 bilhões a US$ 300 bilhões por ano. Segundo dados do WRI, o planeta já perdeu um terço da cobertura florestal e mais de 20% foi degradada. Na iniciativa The Bonn Challenge, lideranças globais estabeleceram o objetivo de recuperar 150 milhões de hectares até 2020. Os projetos apresentados até o momento cobrem 39% da meta, com geração de US$ 16 bilhões em benefícios econômicos por ano.

Licenciamento ambiental "a jato" avança no Congresso

Projeto que prevê prazo máximo de oito meses para a liberação de projetos foi aprovado em comissão do Congresso
BRASÍLIA
Uma mudança polêmica no rito do licenciamento ambiental de grandes obras de infraestrutura começou a dar passos concretos no Congresso Nacional. A Comissão Especial do Desenvolvimento Nacional aprovou na terça-feira, por sete votos a dois, o projeto de lei que institui o chamado "licenciamento ambiental especial".

O projeto, que tem sido chamado de "fast track" do licenciamento, prevê que as autorizações ambientais de grandes projetos de infraestrutura nas áreas de energia, logística e telecomunicações sejam aglutinadas em uma única licença. Hoje, esse processo passa por três etapas: a licença prévia, que atesta a viabilidade do projeto; a licença de instalação, que permite o início da obra; e a licença de operação, que confirma a execução de compromissos assumidos pelo empreendedor e, com base nisso, libera o uso comercial do projeto.

O projeto, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), estabelece um prazo máximo de até oito meses para que o empreendimento esteja completamente liberado para ser construído e explorado. Jucá justificou que o licenciamento atual chega a demorar cinco anos para ser concluído.

Manifestação. Cada órgão ligado ao processo de licenciamento, como a Fundação Nacional do índio (Funai), o Instituto Chico Mendes(ICMBio) e o Ibama, passaria a ter um prazo específico de até 60 dias para se manifestar. Caso algum órgão não cumpra esse prazo, automaticamente fica entendido que ele aprova a obra.

Outra alteração diz respeito à consulta de populações que venham a ser atingidas pelos empreendimentos. A proposta não prevê a realização de audiências públicas antes de se decidir pela viabilidade da obra. Ao defender seu projeto de lei, Jucá disse que a mudança "não tira direito de nenhum órgão de dar seu parecer ou sua manifestação", mas apenas "propõe prazos para que isso aconteça".

A regra seria aplicada sobre os projetos considerados prioritários pelo governo federal, ou seja, as grandes obras que seriam listadas anualmente, por meio de uma portaria aprovada pela presidente Dilma.

O Ministério de Minas e Energia (MME) é um dos principais entusiastas da ideia. Em recente entrevista ao Estado, o ministro Eduardo Braga disse que o projeto tem condições de resolver a maior parte dos problemas do setor. "Estamos apoiando o senador Romero Jucá, esperamos que o "fast track" saia. Não dá mais, temos de unificar as licenças. Se o projeto de lei for aprovado no ano que vem, muda o ritmo da infraestrutura no Brasil", declarou.

Segundo Braga, o projeto conta com o apoio até da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Questionado sobre o assunto, o Ministério do Meio Ambiente informou que, na realidade, chegou a apresentar um substitutivo ao projeto de lei de Romero Jucá e que esta nova proposta foi costurada com outros ministérios.

Para Mauricio Guetta, advogado do Instituto Socioambiental (ISA) e especialista no assunto, porém, o projeto rasga completamente alegislação ambiental do País, abre espaço para o aumento de judicialização de obras e fragiliza as medidas de prevenção e segurança, ampliando riscos para que novas tragédias ambientais como a das barragens em Mariana (MG) se repitam.

"Estamos diante do risco de um dos maiores retrocessos no processo de licenciamento ambiental da história", disse o advogado. /A. B.

• Visões distintas

"Se o projeto de lei for aprovado no ano que vem, muda o ritmo da infraestrutura no Brasil."

Eduardo Braga
MINISTRO DE MINAS E ENERGIA

"Há o risco de um dos maiores retrocessos no processo de licenciamento ambiental da história."

Maurício Guetta
ADVOGADO DO INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL (ISA)